Dias assim

A ideia era fazer pavê de chocolate com licor mas, sem licor em casa, lancei mão de uma vodka Absolut aromatizada com açaí que Felipe trouxe não sei de onde. Apesar da ideia bizarra da Absolut de misturar vodka com açaí e da minha ao colocar no pavê, ficou surpreendentemente bom. A vodka realçou o meio-amargo do chocolate e o doce do creminho de gemas, mas deve ter rolado alguma interação química não conhecida. Em algum momento eu e as amigas não parávamos de rir, à toa, e depois, os assuntos passaram a ser: melhor tirar as crianças da sala mode e o pavê acabou na segunda rodada. Estou certa de que foi uma espécie de larica. Ah, os mistérios da culinária. Comida. Hoje com esse tempo lindo no Rio, uma mistura de céu azul, sol dourado e vento de outono, lembrei de uma época, ainda adolescente, quando vivia muito mais de mar do que de qualquer outra coisa e a vida era acordar e ir dar um mergulho, pescar com os meninos e dar um mergulho, subir na prancha e atravessar de clube pra clube e, dar um mergulho, velejar até o oceano, voltar fim de tarde varada de fome, mergulhar antes de atracar, tomar uma chuveirada de água doce para entrar em casa mas antes, dar um mergulho. Nesse tempo todo mundo sabia que um café com açúcar de manhã, um prato de peixe no almoço e uma banana com aveia à tarde resolvia o assunto. A gente vivia de água salgada e água de coco. E de namorar.

Matizes Dumont

Imagem de Matizes Dumont.

 

Assim como as músicas que trazem lembranças de uma determinada fase da vida, comida também traz de volta um certo tempo, às vezes tão bom que a gente tem vontade de reeditar agora, outros, só pra saber que passou. Minha memória afetiva é cheia de climas e aromas. Posso falar do sol da tarde na mesa da sala de jantar enquanto Tetéi cortava a palha italiana, ou o cheiro de manteiga vindo da massa da torta de camarão de vovó, o barulho doce da sova do pão de alguidar de bá Rita, ou quando quebrávamos nozes para o supremo bolo de nozes de tia Dite. Se depender de Felipe, provavelmente vou ser avó na data limite entre ser bisavó e a senilidade, o que pra mim tá ok. Entretanto, se eu ainda estiver consciente quando for avó, meu netos não escaparão de um bolo que tia Dite fazia para o meu aniversário, coberto com glacê feito com manteiga, açúcar e claras que fazia o bolo parecer uma nuvem de sonho, colorida de Delicados, o que hoje é uma heresia, manteiga, açúcar e etc., mas, você sabe, a principal função da avó é estragar os netos, mais nada. Prometo. Vou fazer um livro de receitas, depois eu conto.

Texto enviado pela querida Angela Scott Bueno.

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